
No underground, nem toda noite é construída da mesma forma.
Algumas começam no impacto.
Outras começam na tensão.
No dia 21 de março, no Soma Estúdio, em Porto Alegre, a experiência foi desenhada como uma progressão. Não apenas dois shows — mas duas propostas que se complementam. De um lado, a construção emocional e atmosférica. Do outro, o peso técnico e o controle absoluto.
E entre esses dois pontos, uma noite que fez sentido do início ao fim.
JAYDSON: ENTRE O ÍNTIMO E O COLAPSO CONTROLADO
Antes do peso mais denso tomar conta da noite com o It’s All Red, o Soma Estúdio abriu espaço para algo diferente — e necessário.

No dia 21 de março, Jaydson subiu ao palco com um set que não busca impacto imediato, mas construção. Um show que cresce aos poucos, que se infiltra, que trabalha mais na tensão do que na explosão.
E isso ficou claro desde o início.
Abrindo com “Somos Só Carbono”, a proposta já se apresentava: uma sonoridade carregada de atmosfera, com guitarras que não apenas pesam, mas criam ambiência. Em seguida, “She Never Even Tried” manteve essa linha mais introspectiva, conduzindo o público para dentro do universo da banda.

Mas o ponto de virada começa a aparecer com “Live Fast, Die Old” e “I Don’t Wanna Die Young”, onde o peso ganha mais corpo e a dinâmica do show se expande. Aqui, Jaydson deixa claro que não está preso a um único clima — há contraste, há movimento.

“Camisa Amarela” e “Psilocybin” aprofundam essa construção, trazendo camadas que transitam entre o alternativo e o pesado, enquanto “Afraid” reforça o caráter emocional do set.

E então vem “Filme do Almodóvar”.
Um dos momentos mais marcantes da apresentação, onde a estética da banda se revela de forma mais completa: melancolia, intensidade e uma identidade que foge do óbvio dentro da cena.

O encerramento com “Todos Meus Amigos” parecia fechar o ciclo.
Mas não.
Ainda havia espaço para um último golpe.
De forma quase despretensiosa, a banda puxa “In Bloom”, do Nirvana — e ali o clima muda. O público reconhece, responde, canta junto. É um daqueles momentos em que palco e plateia se encontram de forma imediata.
Não foi só um cover.
Foi conexão.
O show do Jaydson não foi apenas uma abertura.
Foi um contraponto.
Enquanto muitas bandas apostam na pancada direta para ganhar o público, aqui a escolha foi outra: criar atmosfera, construir narrativa e confiar que quem está ali vai entrar junto.
E entrou.
No Soma, isso funcionou.
Porque às vezes, antes do caos, é preciso tensão.
E Jaydson soube exatamente como entregar isso.















IT’S ALL RED: PRECISÃO, PESO E CONTROLE
Se o Jaydson construiu o terreno, o It’s All Red veio para tomar tudo.
Sem introdução, sem transição, sem aviso.

“H5N1” e “Moment” não abrem apenas o show — impõem um estado. A partir dali, o Soma deixa de ser apenas um espaço e passa a funcionar como extensão do som. Tudo fica mais denso, mais físico, mais presente.
O que impressiona não é só o peso.
É a forma como ele é conduzido.
À frente, Tom Zynski não precisa exagerar para dominar o palco. Sua presença é firme, direta, e sua voz corta a massa sonora com precisão, mantendo tudo sob controle mesmo nos momentos mais intensos.

Nas guitarras, Daniel Nodari e Rafael Siqueira trabalham como um sistema único. Não há disputa por espaço — há construção. Riffs que se encaixam, camadas que se sobrepõem com clareza e uma leitura muito consciente de dinâmica.

No baixo, Velles não apenas sustenta — ele engrossa o som, dá profundidade, empurra o conjunto para frente. Já Renato Siqueira, na bateria, dita o comportamento do show. Seguro, técnico e preciso, é ele quem transforma transições em impacto.


O setlist não é uma sequência.
É progressão.
“Touch the Ground”, “Killing a Dead Tree” e “Poisonous” mantêm a pressão constante, enquanto “Catharsis” expande o espaço sonoro e mostra o quanto a banda domina não só o peso, mas também a atmosfera.
O cover de “Ciudad de Pobres Corazones”, de Fito Páez, poderia ser um ponto de ruptura.
Mas não é.
Ele entra como extensão da identidade da banda, reinterpretado com personalidade e encaixado com naturalidade dentro do fluxo do show.
A partir daí, o crescimento é inevitável.
“All is Full of Red”, “Steps of Ancient Elephants” e “I’m Your Superhero” elevam o nível, levando o público junto em um movimento contínuo, sem queda, sem dispersão.
Quando o show entra na reta final, já não há mais separação entre banda e público.
“Integrate Forever”, “Plavalaguna” e “Gemstone” consolidam essa imersão, preparando o terreno para o desfecho.
E então vêm “Boneless” e “Victoria Needs to Lose”.
Sem excesso.
Sem prolongamento.
Apenas força, precisão e encerramento no ponto certo.

UMA NOITE QUE FEZ SENTIDO
O Soma Estúdio mais uma vez se mostra o cenário ideal para esse tipo de experiência. A proximidade entre banda e público elimina qualquer barreira e transforma tudo em algo mais direto, mais intenso.
No fim, não foram apenas dois shows, mas uma construção clara: da tensão ao impacto, da atmosfera ao peso. E quando essa transição acontece de forma natural, o resultado é uma noite coesa, sem excessos e sem sobras — exatamente como deve ser.























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