Certa feita a Sangue de Bode esbravejou em prantos que “…Nem fodendo eu quero ressuscitar!!” e como se a fúria desse dizer já não fosse o suficiente, a banda reafirma seu manifesto fúnebre e niilista no Funeral de Tudo! Lançado hoje dia 15/04, o álbum foi gravado e captado nos estúdios Espaço Sobrado, em Botafogo (RJ), e Estúdios Papi Aplicações, na Tijuca (RJ), com gravação e captação assinadas por Lucas “Alien” Campello. A produção ficou a cargo de Verme, Alien e Carol Lippi, com co-produção de Sinuê e da própria banda. A mixagem e masterização foram realizadas por Carol Lippi. A arte de capa foi desenvolvida por Desenhos Malditos, enquanto o layout ficou sob responsabilidade de Verme e Sinuê.

Um trabalho que estava envolto em muitas expectativas, pois este 4º álbum foi precedido de 3 petardos que abalaram o cenário underground, o sarrafo estava lá em cima, o hype era absurdo (foda-se o hype!), mas a minha excepção foi contemplada, pois diferente dos anteriores, o álbum não se trata sobre o conceito de revolta, mas se evidencia liricamente a consciência demais em um mundo vazio, num arrependimento da santa ignorância o que desencadeia no preço de enlouquecer lentamente.

O álbum não se apresentou para mim com referências diretas a obras ou autores que conheço, mas indiretamente respira de forma óbvia Nietzsche e pra minha surpresa conversa sorrateiramente com o livro “Do inconveniente de ter nascido” de Emil Cioran… que ao meu ver, tem uma narrativa implícita, que vai do “Morte de Deus” onde não só os valores antigos morreram bem como os novos que também falharam até a lucidez dolorosa e desprezo pela própria existência descrita por Cioran… e o que me fez refletir sobre, foram trechos das faixas iniciais que revelam a consciência como maldição, motes do tipo “sei sem entender nada” ou o “pecado é pensar demais”, tem muita força e dor aqui… e nesse espírito investigativo passei o dia inteiro ouvindo esse álbum mergulhado em meus arquivos a fim de consumir cada trecho com muita avidez! Até porque como diz na faixa “Atento ao sussurro” sim, queremos carnificina, e a Sangue de Bode sabe que queremos.


Desde a abertura, “Quase Fantasma” estabelece o ponto de partida, a desorientação do eu. O eu lírico insiste “onde foi que eu me perdi” e aponta para aquilo que Nietzsche descreve como o colapso das referências tradicionais após a “morte de Deus”. No entanto, ao contrário do filósofo alemão, que enxerga nesse vazio a possibilidade de criação de novos valores, a faixa já indica um desvio mais próximo de Cioran que, ao meu ver seria a conclusão de que a consciência não liberta, ela aprisiona (“preso nessa máquina ruim”). O sujeito não está em transição, nem tem forças para, mas já está em ruína e essa ruína se internaliza. Em Máxima Miséria que inclusive foi lancada em video clipe, o eu, deixa de buscar causas externas e reconhece em si mesmo o foco da degradação perceba o trecho “achei o miserável em mim”. Nietzsche veria aqui uma forma degenerada da vontade, uma força que, incapaz de se afirmar, volta-se contra si mesma. Cioran, por outro lado, identificaria essa passagem como um raro momento de lucidez, perceber-se como falho não conduz à superação, mas à constatação de que não há nada a ser superado. A insistência em imagens corporais, como ferida, lâmina, epiderme; ancora essa miséria no corpo, reforçando a ideia de que a existência não é apenas vazia, mas também fisicamente degradante.

A terceira faixa, “O Mundo Acabou e o Novo Mundo Também“, amplia o horizonte da crise. O colapso deixa de ser individual e torna-se civilizacional. A crítica ao mundo digital, à alienação e à perda de identidade ecoa diretamente o diagnóstico nietzschiano do niilismo que é a desvalorização de todos os valores. Em Ele Era Tão Bom… se apresenta o sentimento da culpa. O sujeito reconhece sua própria participação na queda (“fui eu que armei o explosivo”). Em termos nietzschianos, isso remete à interiorização da culpa característica da moral onde o indivíduo volta sua agressividade contra si mesmo. Mas aqui não há redenção moral, apenas desgaste. A frase “nasci com mil corações e todos morreram” (que agora eu quero tatuar) sugere um esgotamento afetivo total, um colapso da capacidade de atribuir valor às coisas. Cioran veria nisso a confirmação de que a sensibilidade, quando levada ao extremo, conduz inevitavelmente à exaustão. Já a minha faixa preferida, Em Massacres, o foco desloca-se para o campo das ideias. Não são apenas ações ou eventos que destroem, mas os próprios pensamentos: “ideias que são massacres”. Nietzsche já alertava para o poder destrutivo de certos sistemas de pensamento quando estes negam a vida; aqui, essa negação parece total. A imagem de “pouso sem piloto” reforça a perda de direção pois não há mais instância que organize a experiência. A existência torna-se um processo automático rumo ao nada, o que dialoga diretamente com a visão de Cioran quando ele assume a vida como um movimento sem finalidade.

Atento ao Sussurro mergulha no colapso psíquico. As vozes, os comandos contraditórios e a fragmentação da percepção indicam um sujeito que já não distingue interior e exterior. Nietzsche poderia interpretar esse estado como a desintegração de uma unidade que nunca foi sólida, Cioran, por sua vez, veria aí a consequência extrema da lucidez, quando se percebe demais, a própria estrutura da consciência se torna insustentável. A repetição de “corte com pressa, sangre com calma” transforma a dor em ritual, como se o sofrimento fosse a única forma restante de experiência concreta e aqui a gente entra numa espiral infernal que se concretiza na brilhante Em Pus e Vômito, a redução da existência ao biológico degradado. Nesse momento não existe mais abstração filosófica apenas matéria em decomposição. Essa insistência no grotesco que a Sangue de Bode insiste, desmonta qualquer resquício de idealização do ser humano. Nietzsche criticava a negação do corpo em certas tradições morais; paradoxalmente, aqui o corpo não é negado, mas exposto em sua forma mais crua, como algo que não oferece sentido algum. Cioran frequentemente descreve o corpo como uma fonte de humilhação, algo que nos prende àquilo que há de mais baixo. A faixa encarna exatamente essa perspectiva e por fim, Clube Velho encerra o percurso com uma espécie de reconciliação negativa. O conflito com o outro revela-se, na verdade, um conflito interno (“a outra parte de mim”). Não há resolução, apenas reconhecimento. A repetição de trechos como “morte sem velório” reforça a ideia de insignificância, não apenas morremos, mas morremos sem testemunho, sem sentido, sem legado.

Pra fechar, o que fica depois de atravessar Funeral de Tudo é a impressão de ter sido arrastado por algo que realmente pesa, que insiste, que não alivia. E aqui eu não tenho muito pudor em dizer, é um álbum incrível. Não no sentido fácil da palavra, mas naquele mais incômodo, que gruda e volta depois, que pede revisita numa necessidade quase compulsiva e muito disso passa não só pela ideologia acadêmica das letras, mas tbm pela forma como a banda constrói esse som. O vocal vem num estado desesperado, quase cadavérico, como se já estivesse do outro lado e ainda assim continuasse gritando, exatamente como já estamos acostumados dado o brilhante timbre do Verme, o que dá um corpo absurdo pra tudo que está sendo dito. A bateria a todo instante se impõe, metralha como um fuzil, sem dar espaço pra respirar, criando essa sensação constante de urgência e colapso iminente. E por cima disso, as melodias carregam esse peso fúnebre e macabro, destaco aqui a primeira faixa, que real, me fez arrepiar a epiderme literalmente. No fim, a Sangue de Bode não só entrega o que se espera, mas conseguiu superar as expectativas de uma legião de fãs que cresce a cada dia.

Acerta em cheio!

Bibliografia:
CIORAN, Emil. A queda no tempo. Tradução de Fernando Klabin. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

CIORAN, Emil. Breviário de decomposição. Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

CIORAN, Emil. Do inconveniente de ter nascido. Tradução de Fernando Klabin. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.

CIORAN, Emil. Exercícios de admiração. Tradução de José Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. Para além do bem e do mal. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Sangue de Bode

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