
Nem toda noite precisa estar lotada para ser importante.
No domingo, dia 12, o Bar Ocidente não atingiu capacidade máxima. Mas isso ficou em segundo plano diante do que realmente aconteceu ali dentro.
Porque o que se viu não foi um show convencional.
Foi uma reconstrução de atmosfera.
O casarão na esquina da Osvaldo Aranha com a João Telles respirava aquela sensação dos anos 90. O cheiro de cachaça e vinho vindo do Bar do João, a circulação sem barreiras, a mistura de público e músicos. Não havia distância entre palco e pista.
E isso definiu a noite.
Antes mesmo do primeiro ato, o clima já estava estabelecido.

O set do DJ Buiu puxou a pista para dentro da proposta da noite. Um recorte direto dos anos 90, sem filtro, sem adaptação. Era som para quem viveu e para quem entende de onde aquilo veio.
A pista respondeu.
Gente dançando, cantando, se reconhecendo nas músicas.
Não era só aquecimento.
Era ativação de memória.
ATOS, NÃO BANDAS
A estrutura foi dividida em blocos, mas sem quebrar a fluidez.
E o público esteve dentro disso desde o início.
Pulando, respondendo, acompanhando refrões, participando de cada momento como parte ativa da noite.
No primeiro ato, a L.O.R.D.S. abriu direto com “Homem Errado”, seguida de “L.O.R.D.S.”, “Falsos Profetas” e “Quem Está Aqui”. Sem introdução longa. Era entrar e afirmar.

O segundo ato trouxe o Código Penal com “Terra de Ninguém”, “Os Dois Lados”, “Chove Bala”, “Apologia” e “Marginalizado”. O peso muda, mas o fluxo segue contínuo.

No terceiro ato, a noite ganha outra camada com “Meu Lar”, “No Caminho do Bem”, “Meu Parceiro”, “Jovem Cowboy” e “Anjos da Madrugada”. Aqui, o caráter coletivo começa a se impor com mais clareza.

O quarto ato intensifica essa mistura com “Manifesto Público”, “Bomba H”, “Justiça Injusta”, “Perímetro Criminal” e “Me Perco Nesse Tempo”.
É nesse bloco que o cruzamento de linguagens se torna explícito: Denizeli sobe ao palco ao lado do Código Penal para uma versão de “Miss You”, dos The Rolling Stones, ampliando ainda mais o espectro sonoro da noite.

Na sequência, o Código Penal puxa “BC in the House”, do Body Count, trazendo o peso do rap metal e reforçando o lado mais agressivo do crossover dentro daquele contexto.

No quinto ato, as raízes aparecem sem filtro.
Entram “No Sleep Till Brooklyn”, “Fight the Power” e “Shout ’Em Down”, além de “Insane in the Brain”.

E é aqui que o público explode de vez.
Os refrões vêm em coro, a pista responde, a energia sobe.
Na sequência, “Original Hip Hop RS”, “Zona Sul” e “Respeita Nossa Caminhada” fecham o bloco conectando referência e identidade local.
Não era nostalgia.
Era afirmação.
O sexto ato amplia tudo.
A entrada de Edu K transforma o palco em ponto de encontro entre gerações. O pioneiro do DeFalla é homenageado com “Repelente”, “Como Vovó Já Dizia” e “Satisfaction”, com o próprio vocalista assumindo as músicas.

Se até ali a noite já deixava clara sua proposta, o sétimo ato amarra tudo.
O encerramento acontece com todos juntos no palco.
Sem separação.
Sem hierarquia.
“Colors”, “Bring the Noise” e “Walk This Way” fecham a noite como síntese perfeita do encontro entre rap, rock, hardcore e crossover.

Não como covers de encerramento.
Mas como conclusão.
O Osvaldo 93 não foi sobre lotação.
Foi sobre atmosfera.
Uma noite organizada em atos, mas vivida como fluxo contínuo.
Sem divisão rígida.
Sem formato engessado.
Sem excesso.
Apenas música, memória e presença.
E isso, no fim, é o que mantém a cena viva.





























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