
Banda fala sobre sua trajetória, o processo de construção de sua identidade, a evolução musical e a importância de continuar fortalecendo o metal brasileiro
Mais de quinze anos depois de surgir como um projeto entre amigos, a Thrashera continua ocupando seu espaço dentro do underground brasileiro sem abrir mão daquilo que ajudou a construir sua identidade. A velocidade do thrash, a crueza do speed metal e, principalmente, o espírito do velho rock and roll atravessam uma trajetória marcada por mudanças de formação, novos discos, experiências dentro e fora dos palcos e uma relação profunda com a própria cena.
Em entrevista ao Cogumelo em Cena, a banda revisitou diferentes momentos dessa caminhada e falou sobre o início da Thrashera, o processo de composição, a evolução de sua sonoridade, a saída de um de seus fundadores e os caminhos que levaram a banda até sua participação no Festival Aliança Negra 2026.
De um projeto entre amigos para uma banda com identidade própria
A história da Thrashera começou de maneira simples. O que inicialmente era pensado como um projeto entre dois amigos ganhou forma, recebeu novos integrantes e acabou se transformando em uma banda que atravessaria mais de uma década dentro do underground.
Alexandre Chacal esteve entre os fundadores da formação original e teve participação importante na construção da identidade da banda. Depois da saída de integrantes e de diferentes mudanças na formação, a Thrashera encontrou novos caminhos, inclusive com a passagem de um dos atuais integrantes do baixo para a guitarra, quando surgiu a necessidade de acrescentar uma segunda guitarra ao som.
A formação foi mudando, mas a vontade de continuar fazendo música permaneceu.
Mais do que planejar onde chegaria depois de quinze anos, a banda parece ter construído sua trajetória de maneira orgânica, seguindo em frente conforme novas possibilidades apareciam. A experiência acumulada veio acompanhada de outros projetos, trabalhos e responsabilidades, uma realidade bastante comum entre músicos do underground brasileiro.
O velho rock and roll dentro do thrash
Existe uma palavra que ajuda a entender a identidade da Thrashera: rock and roll.
A banda aponta a influência do Motörhead como parte importante da construção dessa proposta, mas não se trata apenas de uma referência sonora. A intenção é preservar uma determinada atitude, mantendo a brutalidade e a velocidade do metal sem abandonar o espírito cru e direto do velho rock and roll.
Essa característica acabou se tornando uma espécie de assinatura.
A sonoridade mudou ao longo dos anos, os integrantes amadureceram e os discos apresentaram diferentes momentos da banda, mas existe um norte que permanece. A Thrashera quer continuar pesada, rápida e agressiva sem perder a essência que estava presente desde o começo.
Quinze anos não cabem em um único repertório
Com quatro álbuns de estúdio lançados e um quinto trabalho em processo de gravação, escolher o repertório para um show se tornou uma tarefa difícil.
Cada disco carrega uma fase diferente da banda e, consequentemente, músicas que representam momentos específicos da trajetória. “Boteco Selvagem”, “Sangue de Metal” e “Xerox” aparecem entre os exemplos lembrados durante a entrevista, mas a própria banda reconhece que existe muito material para ser colocado em um único set.


Por isso, as apresentações precisam ser pensadas com cuidado. Em vez de tentar resumir toda a discografia em um show impossível de ser executado, a banda escolhe as músicas de forma criteriosa.
O resultado é um repertório que procura representar diferentes momentos da Thrashera sem transformar a apresentação em uma simples retrospectiva.
O caos também faz parte do processo
Se existe uma imagem que aparece diversas vezes durante a entrevista, é a do conflito criativo.
As músicas não chegam necessariamente prontas. Muitas vezes começam como um riff, um esqueleto ou uma ideia que vai sendo modificada pelos integrantes até encontrar sua forma definitiva. Um andamento muda, uma guitarra é alterada, uma estrutura é cortada e aquilo que parecia funcionar em um primeiro momento pode precisar ser reconstruído.
O processo é trabalhoso e, como eles mesmos definem, o “pau quebra”.
Mas é justamente dessa fricção que as músicas vão ganhando forma.
O quinto álbum, atualmente em construção, segue essa mesma lógica. A banda trabalha sobre as ideias apresentadas pelos integrantes, experimenta diferentes caminhos e modifica as músicas até encontrar aquilo que realmente funciona.
Quando a mudança de formação também muda o processo criativo

As transformações na formação da Thrashera não ficaram restritas aos instrumentos.
Alexandre Chacal, um dos fundadores e responsável por grande parte das letras da banda durante sua trajetória, também teve um papel importante na construção da linguagem lírica do grupo. Depois de sua saída, esse processo passou a ser dividido entre os integrantes.
As novas letras são discutidas coletivamente. Ideias são apresentadas, estruturas são adaptadas e o texto precisa encontrar espaço dentro da música.
A mudança também trouxe uma nova experiência para integrantes que passaram a assumir funções diferentes dentro da banda. Um dos exemplos é a transição do baixo para o vocal, acompanhada pela necessidade de adaptar letras e interpretações para uma nova configuração.
A Thrashera, mais uma vez, precisou se reorganizar sem abandonar sua identidade.
Evoluir sem perder a sujeira
Ao olhar para a própria discografia, a banda reconhece uma evolução natural.
Os primeiros trabalhos carregavam uma sonoridade mais suja e direta. Com o passar dos anos, a experiência trouxe maior controle sobre os instrumentos, arranjos mais refinados e uma percepção diferente sobre o próprio som.
Não significa deixar o peso de lado.
Significa saber exatamente onde colocar esse peso.
Os integrantes também destacam que grande parte desse aprendizado aconteceu na prática. Não houve uma formação musical tradicional por trás da banda. Eles aprenderam tocando, ouvindo, errando e tentando novamente.
É um processo que continua até hoje.
E talvez seja justamente essa construção pela experiência que permita à Thrashera mudar sem perder aquilo que a tornou reconhecível dentro do underground.
Valorizar quem veio antes também faz parte da identidade
Outro elemento importante na trajetória da Thrashera é a relação com o metal brasileiro.
A banda já utilizou seus trabalhos para homenagear nomes importantes da música pesada nacional e mantém a proposta de olhar para aquilo que foi produzido no Brasil antes dela. Entre as referências citadas durante a conversa estão o Vulcano e os Titãs, além de uma nova homenagem a uma banda veterana carioca que ainda será revelada.
A escolha não é casual.
Para a Thrashera, reconhecer quem veio antes também é uma forma de fortalecer a própria cena. A banda questiona a tendência de parte do público brasileiro de valorizar excessivamente o que vem de fora e defende que o underground nacional possui uma produção extensa, diversa e capaz de gerar novas bandas continuamente.
Mais do que consumir metal brasileiro, a proposta é olhar para ele com atenção.
Uma cena que mudou, mas ainda precisa de espaço
A experiência de mais de quinze anos também permite que a Thrashera observe as transformações do underground carioca.
Os integrantes lembram períodos de maior movimentação, com mais produtores, casas e eventos. Também acompanham as diferentes ondas que atravessaram a cena, desde momentos de maior presença do black e death metal até a explosão do thrash old school.
Hoje, na visão da banda, existe uma dificuldade maior para manter esse circuito funcionando.
Menos público significa menos eventos. Menos eventos significam menos casas e menos produtores. O resultado é um ciclo que afeta diretamente as bandas.
A questão não é apenas quantidade de shows.
É a existência dos espaços necessários para que a cena continue se encontrando presencialmente.
“A banda é mais público que banda”
Talvez uma das falas que melhor definam a relação da Thrashera com o underground tenha surgido justamente quando a conversa chegou ao convite para o Festival Aliança Negra.
A banda já acompanhava as edições anteriores e seus integrantes estavam presentes nos eventos mesmo quando não estavam escalados para tocar. Para eles, frequentar a cena é parte da própria identidade.
A frase resume isso de maneira direta:
“A gente é banda, mas é mais público que banda.”
Antes de ocupar o palco, a Thrashera ocupa a pista.
É uma diferença importante. A banda não se coloca como uma entidade isolada dentro do underground, mas como parte de uma comunidade que acompanha outros grupos, reencontra amigos, conhece novas bandas e participa dos eventos independentemente de estar ou não no line up.
Thrashera no Festival Aliança Negra 2026
O convite para o Aliança Negra veio depois de uma relação que já vinha sendo construída com a produção e com o próprio circuito do festival.
Segundo a banda, o produtor Saci já havia manifestado anteriormente a intenção de levar a Thrashera para o evento. Com o anúncio progressivo das atrações, o convite finalmente chegou.
A participação ganha ainda mais significado por colocar a banda ao lado de diferentes vertentes do metal extremo e do underground brasileiro. O festival reúne propostas distintas, criando um line up capaz de aproximar públicos que nem sempre dividem o mesmo espaço.
Para a Thrashera, essa diversidade é uma das forças do evento.
É também uma oportunidade de reencontrar antigos amigos, conhecer novas bandas e fazer aquilo que eles próprios defendem durante toda a entrevista: participar da cena.
Uma surpresa e a promessa de destruição
Se a banda não entrega detalhes sobre o que está preparando para o Aliança Negra, pelo menos uma coisa ficou clara.
O público pode esperar uma Thrashera com sangue nos olhos.
A promessa é de um show intenso, com mosh, cerveja, amizade, cabeça sendo batida e uma surpresa que os integrantes preferiram manter em segredo.
Mais do que apresentar um repertório, a banda pretende transformar a participação no festival em mais uma noite de celebração do metal.
E existe uma lógica muito própria nisso.
Quando a Thrashera terminar seu show, a banda não vai embora para o camarim simplesmente esperando o encerramento do evento. A ideia é continuar na pista, acompanhando quem vier depois.
Porque, para eles, a celebração não termina quando o próprio palco fica vazio.
Fortalecer a cena é estar presente
No encerramento da entrevista, a mensagem da Thrashera deixa de ser apenas um convite para o próprio show.
É um chamado para ocupar o espaço.
Comparecer. Conversar. Conhecer outras bandas. Comprar material. Fazer amizade. Beber uma cerveja. Apoiar os eventos para que eles possam continuar existindo.
A banda também chama atenção para uma contradição recorrente no underground: reclamar da falta de casas e eventos não é suficiente. Se o público não comparece quando eles acontecem, o circuito perde força.
Para a Thrashera, fortalecer o metal brasileiro começa por estar presente.
E talvez seja justamente essa presença que explique como uma banda nascida há mais de quinze anos continua atravessando diferentes fases da cena sem deixar de fazer parte dela.
No Aliança Negra, a promessa é simples.
A Thrashera vai subir ao palco para fazer barulho.
E depois vai descer para continuar sendo público, junto de quem mantém o underground vivo.







Deixe uma resposta