Depois de “Tears of the Dragon”, Bruce Dickinson retorna às ruas e aos contrastes de São Paulo em “Change of Heart (Reimagined)”. Com novo arranjo, guitarras reconstruídas e uma abordagem quase cinematográfica, uma das faixas mais emotivas de Balls to Picasso ganha uma segunda vida mais de três décadas depois.

Bruce Dickinson no clipe de Change of Heart Reimagined Version gravado em São Paulo

Há uma diferença enorme entre refazer uma música e reencontrá-la.

Quando Bruce Dickinson decidiu retornar a Balls to Picasso, álbum lançado originalmente em 1994, o caminho mais óbvio seria atualizar a produção, limpar algumas frequências, aumentar o impacto das guitarras e entregar ao público uma versão tecnicamente mais próxima daquilo que se espera de uma gravação contemporânea.

Mas More Balls to Picasso vem demonstrando que a intenção é outra.

“Change of Heart (Reimagined Version)”, que ganhou novo videoclipe neste dia 20 de agosto, talvez seja um dos exemplos mais interessantes dessa proposta porque não tenta apagar aquilo que a música foi. Ela parte da composição original de Bruce Dickinson e Roy Z para procurar aquilo que talvez estivesse escondido dentro dela desde 1994.

E encontra alguma coisa.

QUANDO AS CORDAS ENTRAM ONDE ANTES HAVIA ESPAÇO

“Change of Heart” sempre foi uma música emocionalmente diferente dentro de Balls to Picasso. Existe melancolia na composição original, uma sensação de ausência e de alguém tentando compreender uma partida que talvez já tenha acontecido muito antes de ser aceita.

A própria letra constrói essa paisagem.

Dickinson fala de alguém sozinho diante de uma janela, da chuva caindo sobre o vidro, do frio, de árvores sem folhas e da espera pelo inverno. Depois vem a constatação de que determinados dias ficaram para trás e, finalmente, alguém está indo embora.

Não é uma letra sobre explosão.

É sobre vazio.

E talvez por isso o novo arranjo funcione tão bem.

Os arranjos, teclados e programação de Antonio Teoli acrescentam uma dimensão quase cinematográfica à composição, enquanto as novas guitarras de Philip Naslund ajudam a preservar o peso necessário para impedir que a música simplesmente se transforme em uma balada orquestrada.

As cordas são particularmente importantes.

Elas não aparecem apenas como decoração colocada sobre uma gravação antiga para fazê-la parecer maior. Funcionam como extensão do sentimento que já existia na composição.

É como se a música tivesse encontrado, mais de trinta anos depois, uma maneira diferente de dizer aquilo que sempre tentou dizer.

Brendan Duffey, responsável pela produção, remixagem e masterização desta nova versão, consegue manter esse equilíbrio. Existe espaço. Existe atmosfera. Mas quando a música precisa crescer, ela cresce.

E Bruce continua no centro de tudo.

UMA VOZ MAIS VELHA PARA UMA MÚSICA SOBRE O TEMPO

Existe ainda uma camada inevitável quando um artista retorna a uma composição três décadas depois.

O homem cantando já não é o mesmo.

E isso importa.

Em 1994, Bruce Dickinson estava vivendo um dos períodos mais imprevisíveis de sua carreira. Havia deixado o Iron Maiden, procurava outra identidade musical e experimentava caminhos que nem sempre apontavam na mesma direção. Balls to Picasso nasceu exatamente no meio dessa procura.

Mais de trinta anos depois, não existe aquela mesma necessidade de descobrir quem Bruce Dickinson será fora do Maiden.

Essa resposta já foi dada.

Por isso, ouvir uma música sobre perda, passagem do tempo, ausência e mudança interpretada pelo mesmo homem décadas depois inevitavelmente altera nossa percepção sobre ela.

A frase central continua sendo a mesma: alguém está indo embora porque precisa de uma mudança de coração.

Mas o tempo entre as duas gravações também passou a fazer parte da música.

SÃO PAULO OUTRA VEZ

Existe ainda outro elemento conectando “Change of Heart” ao excelente videoclipe de “Tears of the Dragon (Reimagined Version)”: São Paulo.

Depois de utilizar a cidade no vídeo anterior, Bruce volta a encontrar na capital paulista uma paisagem capaz de conversar com essa reconstrução de Balls to Picasso.

Só que São Paulo não aparece como cartão-postal.

E isso faz toda a diferença.

Não existe uma preocupação em provar constantemente ao espectador onde estamos. A cidade funciona muito mais como textura, arquitetura, concreto e sensação.

Leo Liberti e Antoine de Montremy, responsáveis pela direção, utilizam esses espaços para construir uma São Paulo estranha, fria e por vezes quase desabitada.

Em uma das sequências, Bruce aparece dentro de um ambiente deteriorado, cercado por paredes desgastadas, azulejos antigos, ferragens expostas e grandes janelas através das quais podemos perceber os prédios da cidade.

A imagem tem algo de abandono.

Mas Bruce está ali.

Cantando.

O contraste é poderoso justamente porque “Change of Heart” fala sobre alguém que partiu enquanto o personagem que permaneceu continua ocupando aquele espaço.

AZUL, VERDE, PRETO E BRANCO

Visualmente, o clipe possui uma personalidade muito forte.

Existe uma predominância de tons frios, com uma fotografia azulada e deliberadamente dessaturada que em determinados momentos parece quase lavada. Em outras sequências, a imagem mergulha em um preto e branco que não chega a ser completamente neutro.

Há uma discreta contaminação esverdeada.

É pequena, mas suficiente para retirar aquela imagem do preto e branco tradicional e aproximá-la de algo mais desconfortável, quase doente.

Essa escolha conversa perfeitamente com a música.

Não estamos diante de uma fotografia bonita no sentido convencional. Existe sujeira, desgaste, sombras profundas e uma certa sensação de umidade. Mesmo quando a cidade aparece, ela parece emocionalmente distante.

A edição e a pós-produção, também assinadas por Leo Liberti, trabalham justamente sobre esses contrastes.

O resultado é moderno sem parecer artificialmente contemporâneo.

É cinematográfico sem transformar o videoclipe em uma sucessão de imagens bonitas sem função.

Há intenção por trás daquela fotografia.

A MESMA LICENÇA POÉTICA DE “TEARS OF THE DRAGON”

Quem acompanhou o videoclipe de “Tears of the Dragon (Reimagined Version)” provavelmente reconhecerá uma espécie de continuidade.

Não necessariamente narrativa.

Visual e emocional.

Os dois vídeos parecem compreender que revisitar Balls to Picasso não significa reconstruir literalmente os anos 1990. Em vez disso, utilizam as músicas como matéria-prima para criar novas imagens e novos significados.

São Paulo ajuda muito nisso.

É uma cidade suficientemente caótica para “Tears of the Dragon” e suficientemente solitária para “Change of Heart”.

Dependendo de onde a câmera é colocada, ela pode parecer gigantesca ou claustrofóbica.

Essa dualidade combina muito bem com Bruce Dickinson.

E talvez esteja começando a surgir aqui algo ainda mais interessante: uma identidade audiovisual para esse novo universo de More Balls to Picasso.

Se “Tears of the Dragon” abriu essa porta, “Change of Heart” começa a demonstrar que aquela escolha não foi acidental.

NÃO É SOBRE CONSERTAR BALLS TO PICASSO

Existe uma tentação compreensível de tratar More Balls to Picasso como uma espécie de correção histórica.

Talvez seja uma leitura limitada.

Porque “Change of Heart (Reimagined Version)” funciona justamente quando deixamos de compará-la segundo a lógica de descobrir qual versão é “melhor”.

A gravação original pertence a 1994.

Carrega aquele Bruce Dickinson, aquele momento de sua carreira e aquelas decisões artísticas.

A nova pertence a outro homem e outro momento.

As novas guitarras de Philip Naslund, os arranjos e programações de Antonio Teoli e o trabalho de Brendan Duffey na produção, remixagem e masterização não apagam aquela música.

Eles abrem outra janela para ela.

Curiosamente, uma música cuja primeira imagem é justamente alguém sentado sozinho diante de uma janela.

Talvez seja apenas coincidência.

Mas funciona.

CHANGE OF HEART, TRINTA ANOS DEPOIS

Há músicas que envelhecem conosco.

Outras permanecem presas ao período em que foram gravadas.

E algumas oferecem algo mais raro: permitem que o próprio artista volte até elas e descubra que ainda havia alguma coisa para dizer.

“Change of Heart” parece pertencer a essa última categoria.

O peso continua ali. A melodia continua reconhecível. A voz continua sendo inconfundivelmente Bruce Dickinson. Mas existe agora outra atmosfera envolvendo tudo isso.

As cordas ampliam a melancolia sem roubar a força das guitarras. A produção oferece dimensão sem transformar a música em espetáculo vazio. E o videoclipe encontra em São Paulo uma paisagem que parece estranhamente adequada para uma canção sobre distância, mudança e aquilo que permanece depois que alguém decide partir.

Depois de “Tears of the Dragon”, começava a parecer que More Balls to Picasso poderia ser mais interessante do que uma simples revisitação de catálogo.

“Change of Heart” reforça essa impressão.

Bruce Dickinson não está tentando voltar a 1994.

Está fazendo algo muito mais interessante.

Está trazendo aquelas músicas até 2026 para descobrir o que elas têm a dizer agora.


Ficha técnica — “Change of Heart (Reimagined Version)”

Composição: Bruce Dickinson e Roy Z
Produção original: Shay Baby
Novas guitarras: Philip Naslund
Arranjos, teclados e programação: Antonio Teoli
Produção, remixagem e masterização: Brendan Duffey / Brendan Duffey Audio
Direção: Leo Liberti e Antoine de Montremy
Produção executiva: Antoine de Montremy / Les Improductibles
Production Manager: Brendan Duffey
Produção: Addasi Addasi
Edição e pós-produção: Leo Liberti
Management: Dave Shack, Rod Smallwood e Andy Taylor / Phantom Music Management

Texto: Giovanni Maglia | Cogumelo em Cena

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