Primeiro single da nova fase transforma experiências, memória e reconstrução em uma música que encontra força justamente por não romantizar o caminho.

Eu já tinha escrito sobre “Recomeço” antes de ouvir a música.

Quando publiquei o primeiro texto sobre o lançamento, havia uma história sendo apresentada: a mudança de TREVA para TREVA LVCE, uma nova formação, outras experiências acumuladas ao longo da estrada e a expectativa em torno de um primeiro single que deveria apresentar essa nova etapa. Naquele momento, porém, ainda faltava aquilo que, para mim, deveria decidir tudo: colocar a faixa para tocar e descobrir o que existia por trás de toda aquela história quando ela deixasse de ser contexto e finalmente virasse música.

Depois de ouvir “Recomeço” várias vezes, a sensação é de que a TREVA LVCE encontrou uma maneira bastante natural de apresentar essa nova fase. Não há uma tentativa evidente de romper com tudo o que veio antes ou de transformar a mudança de nome em uma reinvenção artificial. A música parte justamente daquilo que a banda já construiu e, a partir desse lugar, apresenta uma identidade mais segura e mais madura.

É no instrumental que essa percepção aparece primeiro.

“Recomeço” não foge do estilo da banda. Pelo contrário, parece levar essa linguagem a um lugar mais refinado e alinhado com o caminho que seus integrantes construíram ao longo dos anos. O blues e o rock clássico americano aparecem com bastante força, acompanhados por uma sonoridade mais limpa e orgânica. As guitarras continuam sendo fundamentais, mas não precisam fazer do peso o principal argumento da música nem disputar espaço com os demais elementos. Piano e Hammond ampliam o arranjo e ajudam a construir uma atmosfera que valoriza mais a composição do que o excesso.

O resultado é interessante porque não soa como uma tentativa de parecer diferente. As referências continuam reconhecíveis, mas estão melhor organizadas dentro da música, como se experiências, influências diversas e caminhos individuais finalmente encontrassem um ponto de equilíbrio. A banda não abandona aquilo que já fazia parte de sua identidade para apresentar uma novidade. O amadurecimento está justamente na maneira como tudo isso passa a coexistir.

Talvez por isso “Recomeço” seja uma faixa difícil de colocar dentro de uma única categoria. Existe uma proximidade com o punk e com o rock pesado na história da banda, mas o instrumental aponta para outras direções e deixa mais evidente uma relação com o blues e com o rock clássico americano, além de uma preocupação maior com melodias e timbres mais limpos. É uma música que parece menos interessada em responder à pergunta “que gênero é esse?” e mais preocupada em construir uma linguagem própria.

E é justamente aí que a TREVA LVCE começa a mostrar quem é.

Maturidade aqui significa finalmente não precisar se encaixar em uma etiqueta.

Essa identidade sonora encontra um contraponto importante na letra. “Recomeço” poderia facilmente ter se transformado em uma música convencional sobre superação, principalmente porque a própria ideia de reconstrução costuma ser acompanhada por discursos que simplificam aquilo que significa começar novamente. A faixa escolhe outro caminho e não tenta tornar a caminhada mais bonita do que ela realmente é.

A dor aparece desde os primeiros versos, acompanhada pelo medo, pela ausência de luz e pela necessidade de continuar mesmo quando o terreno ainda é difícil. Quando Felipe canta que quem segue em plena dor se reconstrói pela chama que arde, a reconstrução não aparece como algo que acontece depois que todos os problemas foram resolvidos. Ela acontece durante o processo, enquanto ainda existe dificuldade e enquanto nem todas as respostas estão disponíveis.

É uma maneira muito mais realista de falar sobre recomeço.

A música não trata a reconstrução como uma escolha simples, muito menos como uma experiência necessariamente bonita. Não existe a promessa de que começar novamente significa deixar tudo para trás e seguir em frente sem olhar para as marcas do caminho. Pelo contrário, “Recomeço” reconhece que algumas coisas continuam sendo carregadas enquanto outras precisam ser reconstruídas.

Talvez uma das imagens mais fortes esteja justamente em “sonho em meio à lama”. O sonho não aparece como recompensa depois de um período difícil, mas como algo que continua existindo enquanto a realidade ainda está longe de ser ideal. A esperança não funciona como uma promessa de que tudo ficará bem. Ela aparece como possibilidade, convivendo com a dificuldade e com aquilo que ainda não foi resolvido.

Essa talvez seja uma das maiores qualidades da composição. “Recomeço” não transforma a superação em um caminho linear, no qual a dor existe apenas para ser vencida e deixada para trás. Ela reconhece que reconstruir alguma coisa significa conviver com aquilo que aconteceu enquanto se tenta descobrir o que fazer com essa experiência.

É nesse ponto que a trajetória pessoal de Felipe Ribeiro ganha importância para a escuta da faixa. “Recomeço” nasceu de experiências que fazem parte de sua própria história, e isso dá peso às palavras sem limitar a música a uma única interpretação. A composição parte de um lugar muito particular, mas encontra espaço para falar de sentimentos que ultrapassam a experiência de quem a escreveu.

Perdas, mudanças, inseguranças, reconstrução e a necessidade de seguir adiante podem assumir formas completamente diferentes, mas continuam sendo reconhecíveis para quem já precisou reorganizar a própria vida depois de algum período de ruptura. Por isso, a música não soa como alguém ensinando outra pessoa a superar alguma coisa. Ela soa mais como alguém reconhecendo que esse processo existe e que, muitas vezes, continuar significa aprender a conviver com aquilo que ainda não foi resolvido.

É também por isso que “Só o tempo mostra quem é” funciona como um dos principais eixos da composição. O tempo não aparece como uma solução mágica capaz de resolver tudo, mas como aquilo que revela o que permaneceu depois que a urgência passa. É com o passar dos anos que se torna possível perceber o que realmente mudou, quais escolhas permaneceram e o que ainda faz sentido quando a novidade deixa de ser novidade.

Essa ideia encontra um paralelo evidente na própria trajetória da TREVA LVCE.

A mudança de TREVA para TREVA LVCE não representa um começo do zero. Existe uma história anterior, referências que continuam presentes e integrantes que chegam a essa formação carregando seus próprios caminhos. O novo nome funciona mais como uma nova perspectiva sobre essa história do que como uma tentativa de apagá-la.

A presença da luz no nome estabelece um contraste interessante com a identidade anterior, mas não precisa significar a eliminação da escuridão. Talvez porque as duas coisas façam parte da mesma experiência. Todos carregamos momentos de luz e de sombra, certezas e dúvidas, perdas e aquilo que conseguimos preservar apesar delas. A nova identidade da banda parece compreender essa convivência em vez de tentar escolher apenas um dos lados.

A letra conduz esse processo até a ideia de reencontro e, finalmente, de reescrever a própria história. Há algo importante nessa sequência porque ela sugere que recomeçar não acontece de uma vez. Primeiro existe a necessidade de reconstruir o que foi abalado; depois, de reconhecer aquilo que permaneceu; e só então surge a possibilidade de olhar para a própria trajetória e decidir o que fazer com ela.

Recomeçar, nesse sentido, não é retornar ao ponto inicial. É continuar a partir de tudo aquilo que sobreviveu.

É por isso que “Recomeço” funciona tão bem como primeiro retrato dessa nova fase. A música não tenta convencer ninguém de que a caminhada foi fácil, tampouco transforma a dor em uma espécie de medalha. Ela reconhece a dificuldade sem fazer dela um espetáculo e deixa espaço para a esperança sem transformá-la em uma promessa fácil.

É nesse encontro entre letra e trajetória que a nova fase da TREVA LVCE ganha ainda mais sentido. A banda não precisa negar aquilo que foi para descobrir aquilo que pode ser. As experiências individuais de seus integrantes, suas referências e tudo o que foi construído até aqui não funcionam como obstáculos para uma nova identidade. São justamente a matéria-prima que permite construí-la.

Talvez seja esse o ponto em que “Recomeço” ultrapassa a condição de primeiro single de uma nova fase. A faixa apresenta uma banda que parece ter chegado a um momento em que não precisa mais explicar exatamente onde se encaixa. O blues, o rock clássico americano, as melodias mais limpas e as diferentes experiências que formaram seus integrantes convivem dentro de uma música que não parece preocupada em escolher apenas uma dessas referências.

O resultado é uma identidade mais clara justamente porque existe liberdade para não reduzi-la a uma única definição.

“Recomeço” não oferece uma fórmula para superar aquilo que passou, porque a vida raramente funciona dessa maneira. O que ela oferece é uma perspectiva mais honesta sobre continuar quando o caminho ainda não está completamente claro. A música reconhece que algumas coisas precisam ser deixadas para trás, outras precisam ser reconstruídas e muitas continuam fazendo parte de quem somos.

No fim, recomeçar não significa apagar a história anterior. Significa assumir novamente a possibilidade de escrevê-la.

E talvez seja justamente essa a maior força da faixa. “Recomeço” não anuncia que a TREVA LVCE se tornou outra banda. Ela mostra uma banda que chegou a um ponto de maturidade em que já não precisa abandonar suas referências, esconder suas diferentes influências ou escolher uma única definição para explicar aquilo que faz.

Algumas bandas precisam mudar completamente para encontrar uma nova identidade. Outras amadurecem até perceber que ela já estava ali, construída aos poucos, nas experiências, nas escolhas e em tudo aquilo que conseguiram preservar pelo caminho.

https://www.instagram.com/trevalvce

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