Ouvir At the Gallows of Doom me deixou com a sensação de estar diante de uma obra que foi pensada para preparar terreno. Ok, esse é normalmente o papel de um EP, mas é que esse o faz muito bem.

Lançado em 28 de agosto de 2026, funciona como uma espécie de introdução ao que a banda pretende apresentar no full length previsto para o final do ano. São quatro faixas que percorrem pouco mais de quinze minutos e apresentam uma atmosfera bastante densa, construída em torno de temas como miséria, exclusão, opressão, conhecimento, desesperança e a própria condição de existir. A faixa título já estabelece o clima do trabalho. “At the Gallows of Doom” fala pra mim, sobre alguém que parece carregar uma condenação desde o nascimento. A ideia aparece logo nos primeiros versos e volta durante toda a música através de imagens de pobreza, morte, fome e abandono.

A expressão “social Apartheid” chama atenção dentro da letra e ajuda a direcionar a música para uma leitura social. A figura do homem esquecido representa alguém que foi deixado para trás e que encontra na própria existência uma sucessão de noites frias e sem estrelas. Gostei especialmente de como a letra vai deixando a questão social cada vez mais próxima de uma crise individual. A música começa falando de uma condição imposta e termina mergulhada em pensamentos, sonhos que desaparecem e vidas perdidas pelo caminho. O refrão retorna algumas vezes e reforça essa sensação de destino inevitável que percorre toda a faixa.

“Progenies of the Unseen” segue por um caminho ainda mais carregado. A frase “We are the heirs of the forgotten!” resume muito bem a atmosfera da música. Existe uma sensação constante de pertencer a uma geração ou linhagem marcada pelo abandono. A letra fala de dor, perda, solidão e dúvida e coloca o conhecimento no centro dessa inquietação. Tem Kafka aqui, eu sinto… Também gosto bastante da escolha das palavras nessa faixa. “Abomination”, “Delirium”, “Tribulation” e “Imperium” dão à música uma linguagem quase ritualística. Existe uma solenidade estranha nesses versos, como se estivéssemos acompanhando um discurso feito por alguém que tenta encontrar algum significado em uma existência que parece cada vez mais difícil de compreender.


“Endless hunger among the forgotten” é outro verso que me chamou atenção. A fome aparece como algo que ultrapassa a necessidade física. Existe uma busca por conhecimento e por algum propósito que consiga dar sentido à solidão. A música termina repetindo “Delirium”, “Loss and sorrow” e “Imperium”, deixando uma impressão de permanência desse estado de sofrimento.


“One Last Pulse” aparece então como um momento extremamente curto dentro da sequência. São apenas 1 minuto e 3 segundos, mas a posição da faixa funciona muito bem. Depois da carga das duas primeiras músicas, esse interlúdio cria uma pausa antes da última faixa. O próprio título já carrega uma imagem bastante forte e, dentro da sequência do EP, esse último pulso pode ser percebido como um instante entre tudo aquilo que foi apresentado anteriormente e o que ainda está por vir. “In the Depths of Misery” o ponto alto do EP pra mim, retoma vários dos temas anteriores.

A letra começa falando sobre opressão e destruição e rapidamente passa para uma ideia de reação. “Rise from the gutter of misery”, “Erase the perpetual ignorance” e “Fight for what you’ve been denied” trazem uma postura mais combativa. O conhecimento volta a aparecer como uma ferramenta importante. A busca por um lugar onde o sol brilhe para os chamados “chosen ones” (me lembrou Dark Souls) traz novamente a questão da desigualdade.

A letra apresenta uma sociedade dominada por exploração e humilhação e coloca o indivíduo diante da necessidade de compreender as próprias correntes. Um dos trechos que mais gostei está justamente na parte em que a música fala sobre essas correntes como algo que também existe dentro da mente. “We bind ourselves to rusty chains / In the prison created in our brains” resume uma das ideias mais interessantes do EP. A opressão pode se tornar parte da própria consciência e transformar a pessoa em prisioneira daquilo que ela vive.


A imagem final da serpente devorando a própria cauda também se encaixa muito bem nessa ideia de ciclo… Ereboros né… a existência se transforma em uma repetição de sofrimento, exploração e autodestruição. A música termina falando novamente de exploração e humilhação e deixa uma sensação bastante amarga. At the Gallows of Doom me parece um EP muito mais interessado em apresentar um universo do que em entregar uma história fechada. As quatro faixas compartilham uma mesma atmosfera e várias ideias retornam ao longo do trabalho. A miséria aparece como condição social, experiência individual e estado psicológico. A morte está presente desde o título da primeira faixa até o último pulso. O conhecimento surge como possibilidade de compreensão e a liberdade permanece como algo difícil de alcançar.

Com esse lançamento, a Ereboros apresenta uma prévia bastante interessante do que pode vir no full length. Não posso deixar de mencionar a arte espetacular dos singles anteriores, do próprio EP e do futuro álbum que foram criados pela @desenhosmalditos, arte belíssima, pontilhismo e escolha de cores que representam muito bem toda a atmosfera do álbum, brilhante, quero camisas e peço aos deuses que venha em LP…

O EP deixa algumas portas abertas e justamente por isso aumenta minha curiosidade em relação ao álbum. Se essas quatro faixas funcionam como uma introdução ao universo que a banda pretende desenvolver no final de 2026, fica a expectativa para descobrir como essas ideias serão ampliadas em um trabalho de maior duração. Por enquanto, At the Gallows of Doom cumpre muito bem esse papel. É um lançamento curto, pesado e carregado de conteúdo, com letras que merecem atenção e uma identidade conceitual que fica na cabeça depois que a última música termina. Agora resta esperar pelo full length e descobrir até onde a Ereboros pretende levar esse universo.

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