
Com estreia do Treme Terra na lona carioca, a noite de 31 de outubro reuniu o peso do rap e do drill, a experiência de músicos com trajetórias marcantes e duas décadas de reggae brasileiro.
O Circo Voador, na Lapa, recebeu no sábado, 31 de outubro, uma programação que aproximou diferentes gerações e linguagens da música brasileira. A noite teve como atração principal o Maneva, com a turnê comemorativa 20 Anos, Origem, mas começou com um acontecimento igualmente importante: a estreia do Treme Terra no palco de uma das casas mais emblemáticas da música ao vivo no Rio de Janeiro.
Com ingressos esgotados, a programação colocou em diálogo dois projetos de identidades distintas, mas conectados pela força da música urbana. De um lado, o Treme Terra apresentou sua mistura de drill, rap e instrumentação ao vivo. Do outro, o Maneva revisitou vinte anos de trajetória por meio de um repertório que percorreu diferentes momentos de sua discografia e incorporou releituras de canções marcantes da música brasileira.
Não foi simplesmente uma noite de abertura e atração principal. Foram duas histórias ocupando o mesmo palco.
TREME TERRA: UMA ESTREIA QUE REÚNE GERAÇÕES E TRAJETÓRIAS

Antes da celebração dos vinte anos do Maneva, o palco recebeu o Treme Terra, projeto que reúne o rapper Rottweiler e o baixista Lauro Farias, músico cuja trajetória está diretamente ligada ao O Rappa.
A proposta parte do encontro entre linguagens que possuem características próprias. O drill e o rap encontram uma formação instrumental, criando uma sonoridade em que as batidas eletrônicas convivem com a força dos instrumentos executados ao vivo.
No palco do Circo Voador, Rottweiler assumiu os vocais acompanhado por Thiago Silva na bateria, Jota Alves na guitarra, Lauro Farias no baixo e DJ Marcelinho nas intervenções de DJ.

A apresentação também contou com João Pedro, conhecido como Pretto, filho de Rottweiler. Recentemente, o jovem completou 18 anos e participou de todo o espetáculo ao lado da banda, dividindo o palco e os vocais durante a apresentação.
Sua presença acrescentou uma dimensão especial ao projeto. Pai e filho compartilhando o mesmo espaço artístico, mas também um ambiente de construção musical em que Pretto ocupa seu próprio lugar como MC.
A participação durante todo o show tornou essa presença parte da identidade da apresentação, e não apenas uma intervenção pontual.

A formação também merece atenção pela diversidade de experiências que reúne. A presença de Lauro Farias acrescenta uma bagagem instrumental importante, especialmente para quem conhece sua história no O Rappa. Seu baixo estabelece uma conexão entre a sonoridade orgânica de uma banda tocando ao vivo e a linguagem contemporânea do rap.
O repertório apresentado reforçou esse encontro de referências. Racionais MC’s, MV Bill, Sparta, Tumulto e DMX apareceram entre as referências musicais da seleção, enquanto canções como “Minha Alma”, “Rodo Cotidiano” e “Homem Amarelo” estabeleceram uma ligação direta com a trajetória do O Rappa.
Também houve espaço para intervenções de DJ, momentos instrumentais e um solo de Lauro Farias, ampliando a força da apresentação. A resposta do público acompanhou esse movimento, com a plateia participando e reagindo à energia construída pela banda no palco.











A estreia no Circo Voador representa um capítulo importante para o Treme Terra. Não apenas pelo peso simbólico de ocupar aquela lona, mas pela oportunidade de apresentar uma proposta que aproxima diferentes experiências da música urbana.
É um projeto que merece ser acompanhado de perto, especialmente por apostar na mistura entre gerações, instrumentação e novas possibilidades para o rap.
MANEVA: VINTE ANOS DE MÚSICA, CAMINHOS E CONEXÃO

Depois de uma abertura marcada pela força do Treme Terra, chegou o momento de celebrar duas décadas de Maneva.
Formada em 2005, a banda construiu uma trajetória que ultrapassou as fronteiras do reggae tradicional. Ao longo dos anos, desenvolveu uma identidade própria, incorporando elementos de diferentes vertentes musicais e estabelecendo uma relação consistente com públicos de diferentes gerações.
A turnê 20 Anos, Origem foi concebida para revisitar esse caminho. Mais do que reunir sucessos, a proposta é olhar para diferentes fases da carreira e reconhecer as músicas que ajudaram a construir a identidade do grupo.
O repertório apresentado no Circo Voador demonstrou essa amplitude.
A abertura com “Saudades do Tempo” colocou em evidência uma das canções mais representativas da trajetória da banda. Na sequência, “Lágrimas de Alegria”, “Incenso”, “Daquele Jeito” e “Me Leva” deram continuidade a um percurso musical que atravessa diferentes momentos da discografia.

Desde os primeiros acordes, o público já demonstrava sua conexão com a banda. A plateia cantava junto, acompanhando as músicas e transformando cada refrão em um momento coletivo. Era possível perceber a presença de fãs que conhecem o repertório de ponta a ponta, acompanhando as canções não apenas como ouvintes, mas como parte de uma história construída ao longo dos anos.
“Lágrimas de Alegria” também merece destaque por seu reconhecimento na trajetória do grupo, com indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa.
Mas um dos aspectos mais interessantes do espetáculo está na maneira como o Maneva amplia seu repertório para além das próprias composições.



A presença de “Uma Brasileira”, “A Paz”, “Meu Erro” e “Anunciação” demonstra a relação da banda com diferentes referências da música brasileira. São canções que pertencem a trajetórias distintas, mas que encontram espaço dentro da proposta musical do grupo.
Essa escolha dialoga com a própria natureza do reggae, um gênero historicamente aberto à troca de influências e à incorporação de outras linguagens.
O Maneva trabalha essas referências sem abandonar sua identidade. O resultado é um repertório que transita entre a memória musical coletiva e as composições que ajudaram a consolidar a banda.
UM REPERTÓRIO QUE ATRAVESSA DIFERENTES FASES
A sequência musical também percorreu momentos importantes da discografia autoral.
“Seja Para Mim”, “Reggae Sua Fé”, “Solta Teu Cabelo”, “Lembranças” e “Luz Que Me Traz Paz” aparecem entre as escolhas que ajudam a compreender a diversidade temática do grupo.
Há espaço para o romantismo, para a espiritualidade, para a reflexão e para a celebração da vida. Elementos que, ao longo de vinte anos, passaram a fazer parte da identidade musical do Maneva.
Outro momento interessante do repertório foi a combinação de “Êxodo / Vestido de Seda”, uma escolha que reforça o diálogo com outras referências musicais.



Na sequência, “Péssimo Negócio”, “Flor de Azaleia” e “O Destino Não Quis” conduzem a apresentação por diferentes momentos da relação construída entre a banda e seus ouvintes.
“Anunciação” acrescenta outra camada à seleção, enquanto a parte final reúne músicas como “Deixe Me Ir”, “Meu Pai É Rasta”, “Pisando Descalço” e “Tô de Pé”.
É uma escolha que não se limita a uma retrospectiva cronológica. O repertório procura representar diferentes fases, influências e momentos da história do grupo.
E existe uma diferença importante entre simplesmente executar músicas antigas e compreender o significado que elas adquiriram ao longo dos anos.









Uma turnê de vinte anos carrega justamente esse desafio: transformar memória em experiência presente.
DUAS HISTÓRIAS, DIFERENTES CAMINHOS, UMA MESMA NOITE
A programação do Circo Voador ganhou força justamente pela diversidade das propostas.
O Treme Terra chegou com uma formação que conecta drill, rap e instrumentação ao vivo, reunindo músicos de diferentes gerações e apresentando uma nova etapa de suas trajetórias.
O Maneva, por sua vez, ocupou o palco com a experiência de duas décadas de carreira, revisitando composições e referências que ajudaram a construir seu espaço dentro do reggae brasileiro.
São projetos que não precisam compartilhar a mesma linguagem para estabelecer um diálogo.
O que aproxima essas apresentações é a capacidade de reconhecer a música como um território de identidade, experimentação e continuidade.
A participação de Pretto ao lado do pai, a presença de Lauro Farias com sua história musical e a estreia do Treme Terra na lona carioca representam um movimento de renovação e construção de novos caminhos.
Já a celebração do Maneva mostra como uma trajetória musical pode continuar encontrando significado em diferentes gerações.
O Circo Voador foi o ponto de encontro dessas histórias.
Uma noite em que o rap, o drill e o reggae dividiram espaço, mostrando que a música brasileira não precisa caber em fronteiras rígidas para seguir criando conexões.
Porque a história da música não é construída apenas por quem já chegou longe. Ela também acontece quando novas vozes encontram espaço, quando diferentes gerações dividem o palco e quando uma trajetória de vinte anos continua encontrando motivos para seguir em frente.







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