Com o Soma lotado, a noite de 31 de outubro reuniu a apresentação do novo álbum do It’s All Red e a surpresa peruana Vulture on the Prowl.
Era Halloween, mas os monstros que encontrei naquela noite atendiam por outros nomes: It’s All Red e Vulture on the Prowl. No dia 31 de outubro, o Soma Estúdio e Music Hub, em Porto Alegre, recebeu um encontro entre o metal gaúcho e o peruano, com espaço para descobrir uma banda e reencontrar outra que já acompanho há bastante tempo.

Como gosto desses shows em estúdio. A proximidade permite acompanhar detalhes que às vezes escapam em espaços maiores: a execução dos instrumentos, a troca de olhares entre os músicos e a maneira como cada um ocupa seu lugar na apresentação. No Soma, essa experiência ganhou a companhia de uma casa lotada. Pela minha impressão, o espaço disponibilizado devia comportar algo entre 50 e 70 pessoas.
De um lado, os peruanos do Vulture on the Prowl, responsáveis pela abertura, eram uma incógnita para mim. Do outro, o It’s All Red chegava com disco novo e uma trajetória que eu já havia acompanhado em várias apresentações. Duas relações diferentes com a música, que acabaram rendendo bons motivos para lembrar daquele Halloween.
Vulture on the Prowl: a surpresa veio do Peru
Eu não conhecia o Vulture on the Prowl e cheguei sem saber muito bem o que esperar. Sabia que era uma banda peruana de death metal, mas nem sequer tinha ouvido o suficiente para descobrir se cantavam em inglês ou espanhol. O repertório daquela noite, com títulos nos dois idiomas, começou a preencher essa lacuna. A surpresa foi das boas.

Embora o material de divulgação apresente dois guitarristas, naquela noite a banda tocou com apenas um, acompanhado de baixo, bateria e da vocalista Miriam Maldonado. Foi com essa formação que os peruanos conquistaram minha atenção, apresentando um death metal muito bem executado e com uma característica que imediatamente chamou meus ouvidos: o vocal limpo, sem guturais.
O repertório começava com “Tu Poder en las Sombras” e “Ansiedad”, seguindo por “Rebelión” e “Invisible Killer”. Para quem havia chegado sem referências, a sequência era uma apresentação ao universo da banda. Minha curiosidade inicial sobre o idioma logo deu lugar ao interesse pelo que aqueles músicos estavam mostrando.

A voz de Miriam é impressionante. Dentro de uma sonoridade que eu associava de saída aos vocais extremos, sua interpretação abriu outra possibilidade de escuta. O peso estava presente, assim como a competência instrumental, mas aquela voz dava uma identidade particular ao conjunto.
Na continuidade do setlist, “La Ciudad de los Campos Minados” aparecia antes de uma passagem identificada no papel apenas como “Instrumental”. Depois vinham “Another Wasted Day” e “Inmunidad”, enquanto o trecho final reservava “Testigo del Horror” e “Deep Breath Again”. Entre títulos em espanhol e inglês, os peruanos apresentaram um repertório que me deixou com vontade de conhecer melhor seu trabalho.
O show também me fez pensar em como nosso olhar para o metal sul-americano ainda é limitado. Acompanhamos bandas brasileiras, norte-americanas e europeias, discutimos seus discos e esperamos suas turnês, mas frequentemente sabemos pouco sobre o que acontece nos países vizinhos. Existe um mundo musical próximo de nós que acaba ficando fora do nosso radar.
Eu mesmo estava diante de um exemplo disso. Não conhecia o Vulture on the Prowl, não tinha criado expectativa e encontrei uma banda que merecia muito mais da minha atenção. A primeira surpresa da noite veio do Peru — e tinha na voz de Miriam Maldonado um de seus grandes motivos.














It’s All Red: disco novo e uma banda afiada
Com o It’s All Red, minha relação era outra. Os porto-alegrenses já faziam parte da minha caminhada como espectador. Pelas minhas contas, esse deve ter sido o sétimo show da banda que assisti. Acompanhar um grupo tantas vezes permite perceber suas mudanças, reconhecer sua evolução e dizer com alguma segurança: os caras estão muito afiados.

Um dos motivos do encontro no Soma era o lançamento do novo álbum, “It’s All Red”, apresentado em um momento de mudança na formação. O baixista Velles havia deixado a banda para se dedicar ao Hibria, mas sua contribuição permanecia nas músicas. Com participação ativa na composição do disco, ele tinha ajudado a construir o material que agora ganhava vida naquele espaço. Seu sangue estava ali.
Na apresentação, as linhas de baixo foram reproduzidas por gravação. Era uma configuração diferente daquela que eu havia acompanhado em outras ocasiões, mas o resultado me convenceu completamente. Mesmo sem um baixista no palco, esse foi um dos melhores shows que já assisti do It’s All Red.

O repertório aproximava o disco novo de diferentes momentos da trajetória da banda. “Sharpen Our Teeth”, “Moment”e “Pertencimento, Pt. 2” formavam o bloco inicial, seguido por “Femme”, “Touch the Ground”, “H5N1” e “Macau”. As músicas recentes encontravam espaço entre faixas que já faziam parte desse percurso, dando à noite tanto o caráter de lançamento quanto o de reencontro.
Na sequência, “Killing a Dead Tree” aparecia antes de “Lost Empire”, “Poisonous”, “Pitaya” e “Hitting a Bullet”. O trecho final reunia “Plavalaguna”, “Integrate Forever” e “Boneless”, completando uma seleção que permitia observar o presente da banda sem perder de vista o caminho até ali.
Conhecer boa parte dessa trajetória tornava a experiência ainda mais interessante. Eu tinha outras apresentações na memória, outras referências para comparar, e aquela noite conseguiu ocupar um lugar especial entre elas. A banda estava segura, o repertório reunia diferentes fases e a proximidade proporcionada pelo Soma ajudava a perceber o quanto o It’s All Red estava afiado.
Saí com duas sensações que fazem valer a pena continuar frequentando shows: a vontade de procurar os discos de uma banda que acabei de descobrir e a satisfação de ver outra, que já conheço, entregar uma de suas melhores apresentações.
No Halloween do Soma, encontrei os dois monstros que procurava. Um veio do Peru e me pegou de surpresa. O outro era de casa e mostrou que ainda tinha muito para me impressionar.































Texto: Giovanni Maglia | Cogumelo em Cena







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