
Na contramão da “normalização” da música pesada, a Kidsgrace emerge como uma das bandas mais potentes e necessárias do underground brasileiro. Formada em 2022, no Distrito Federal, a banda constrói sua trajetória a partir do incômodo sonoro, social e existencial transformando vivência em ruído e resistência.
Sua formação é um dos elementos centrais de sua identidade enquanto banda. O grupo rompe diretamente com paradigmas historicamente impostos ao underground, um território que, por muito tempo, reproduziu padrões rígidos de masculinidade e definiu quem podia ocupar o palco e quais corpos eram legitimados dentro da cena.
Não se trata de marketing ou discurso político, mas de atitude. Estar em cena, tocar e lançar músicas já é, por si só, um gesto de resistência. Formada por Tuttis (vocal), Dabi e Lorena (guitarras e baixo) e Gabriel Zenon (bateria), a Kidsgrace consolida uma estrutura sonora intensa, rompendo padrões e questionando paradigmas ligados à música, à estética e ao gênero.


Sem limites estilísticos: o hardcore como linguagem viva
A Kidsgrace parte do hardcore, mas não se limita a ele. Suas composições absorvem influências diversas, criando um som ao mesmo tempo direto, denso e emocionalmente exposto. Riffs cortantes, linhas de baixo pesadas e uma bateria incisiva sustentam vocais que gritam, rasgam e denunciam.
As letras nascem das vivências cotidianas e das emoções à flor da pele. Ansiedade, frustração e esgotamento mental atravessam as músicas sem filtros. Não há tentativa de suavizar o discurso: a banda transforma experiências individuais em um grito coletivo.
“Tudo está normal (?)”: ironia como denúncia

Lançado em 2023, o EP Tudo está normal (?) funciona como um manifesto inicial da Kidsgrace. O ponto de interrogação no título não é detalhe estético, mas síntese do discurso do trabalho: a recusa em aceitar como “normal” um mundo que adoece, silencia e oprime.
As faixas transitam entre a sensação de estar constantemente observado, a ansiedade crônica e os conflitos internos ligados à identidade. Em músicas como “Disforia”, a banda expõe feridas abertas sem recorrer a metáforas confortáveis. O EP não propõe soluções, mas provoca perguntas e esse desconforto é parte central de sua força.


O palco como espaço de resistência
Ao vivo, a banda entrega apresentações intensas e estabelece conexão direta com o público. Cada show se transforma em espaço de afirmação: ocupar o palco é um ato político. A Kidsgrace vem participando de eventos independentes, festivais e circuitos alternativos, fortalecendo uma rede que resiste à lógica comercial e às estruturas excludentes da indústria musical. Seus shows não são apenas apresentações, mas encontros onde identidade, som e presença se misturam de forma visceral.

Femini Chaos: o hardcore como força coletiva

A participação na coletânea Femini Chaos, com as faixas “Todo Santo Dia” e “Mérito”, amplia ainda mais o alcance de seu discurso. Inserida em um projeto que valoriza a presença feminina na música pesada, a banda reafirma seu compromisso com a expressão livre e com a força coletiva.
As músicas dialogam diretamente com a proposta da coletânea: denunciar opressões cotidianas e afirmar a existência de corpos que, por muito tempo, foram silenciados dentro da cena.
Uma banda necessária
A Kidsgrace não se encaixa, ela tenciona. Não suaviza, confronta. Não espera validação, constrói seu próprio espaço.
Em um cenário que ainda insiste em impor regras invisíveis sobre pertencimento, estética e legitimidade, a banda transforma palco em trincheira e som em posicionamento. Cada riff, cada grito e cada presença ao vivo reafirmam que o hardcore não é peça de museu nem território fechado: é movimento, é disputa, é transformação constante.
A Kidsgrace existe para lembrar que o underground não é confortável, é inquieto. E enquanto houver estruturas tentando limitar quem pode existir dentro da cena, haverá bandas como essa atravessando o silêncio com distorção.
Porque, definitivamente, não está tudo normal.
E talvez nunca devesse estar.
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