Dos incontáveis estilos do metal extremo, o Death Metal é o lastro que nos une enquanto cena. Independentemente do nicho, quem aprecia música pesada inevitavelmente conhece uma ou outra banda do gênero. E foi justamente sob essa égide no berço da boemia carioca, aos pés dos Arcos da Lapa, numa terça-feira que a noite foi amaldiçoada por um dos maiores expoentes da história: a Obituary ceifou nossas almas. Os norte-americanos não vieram sozinhos. Ao lado deles estavam a furiosa LAC (RJ) e a pestilenta Podridão (SP), responsáveis por levar a Agyto ao limite da estrutura física e espiritual.

Pontualmente às 19h, as portas do inferno se abriram. A fila já indicava casa cheia, algo incomum para uma terça-feira, embora esse paradigma esteja mudando. A cena tem se comprometido cada vez mais, ocupando dias antes impensáveis. E como quarta-feira é dia útil para quase todos nós, era necessário que tudo fosse direto, preciso. Nesse quesito, a organização foi impecável. Em poucos minutos, a LAC já estava posicionada para distribuir brutalidade. Lacerated and Carbonized, ou simplesmente LAC, representa o underground carioca como poucas bandas. A escolha para o line-up foi cirúrgica. O ataque começou com The Scum Society, Narcohell e Third World Slavery uma sequência devastadora. O entrosamento da banda ao vivo é evidente; não há sobras nem falhas. A plateia, inicialmente contida, rapidamente se transformou numa arena de empurrões e socos ritualísticos. Destaco os urros de Jonathan Cruz, que rasgaram o espaço-tempo da casa com entrega absoluta. A resposta do público foi tão intensa que parecia improvável haver fôlego para o que ainda estava por vir.









Mas havia.
Ainda sob o impacto da abertura, fomos tomados pela atmosfera insalubre anunciando a chegada da Podridão. O trio paulista Repugnant Fat, Rotten Flesh e Putrid Dick entrega um espetáculo que beira o grotesco artístico. É a segunda vez que os vejo ao vivo e, novamente, saio impressionado. Há algo quase poético na maneira como transformam o que há de mais decrépito na condição humana em música extrema. Com faixas do recente Coffin of the Corrupted Dead (2025) e clássicos da primeira fase, o ápice, para mim, foi Fucking Your Corpse catártica, sufocante. Embora se apresentem como death metal, há nuances interessantes nas linhas de baixo: momentos arrastados, quase downtempo, como um caixão sendo conduzido lentamente, antes da explosão inevitável em brutalidade pura. É domínio técnico e estético. E então, 2026 começou de fato. Se há quem diga que o ano só começa após o carnaval, para o underground carioca ele começou com dois pés na porta. Estávamos diante de uma das pioneiras do gênero. Formada em 1988, a Obituary celebrava 35 anos de Cause of Death (1990), um divisor absoluto na história do Death Metal.

Contemporâneos de Death, Morbid Angel e Deicide, consolidaram o que muitos chamam de “Big Four” do death metal estadunidense.
Eu tinha dez anos quando o Death chegou ao fim com a partida precoce de Chuck Schuldiner. Nunca pude vê-los ao vivo. A comparação é inevitável. Meu vínculo com o Obituary nasce dessa lacuna histórica. Foi buscando o death metal mais cru que encontrei no Death que descobri o Obituary e, de certa forma, encontrei ali uma continuidade. Cause of Death não é apenas um álbum. É um marco obrigatório para qualquer apreciador de música extrema. Atemporal, técnico, melódico na medida certa e brutal quando necessário. Os vocais são densos, inconfundíveis. Os riffs tornaram-se referência para gerações.






Quando anunciaram a turnê comemorativa executando o disco na íntegra, a reação foi visceral: “eu não posso morrer antes de presenciar isso”.

Às 22h15, com ingressos esgotados, a entidade Obituary subiu ao palco. Abriram com duas faixas de Dying of Everything talvez preparando o terreno, amaciando a carne antes do golpe final. As luzes se apagaram. A introdução sepulcral de Infected invadiu o ambiente. E ali, sob os urros da plateia ensandecida, começava Cause of Death. A execução seguiu como um ritual inevitável. Body Bag veio pesada, arrastada, com aquele riff pantanoso que parece emergir direto do lodo da Flórida. O peso era quase físico. Cada virada de bateria era acompanhada por punhos erguidos e gritos que competiam com o próprio sistema de som da casa. Com Circle of the Tyrants, o peso ganhou contornos ainda mais obscuros. A roda já não era apenas uma roda, era um redemoinho. Cotovelos, ombros, corpos se chocando numa coreografia caótica, mas respeitosa. Stage dives começaram a surgir em sequência. Não havia hesitação: era subir e se lançar, confiando plenamente na massa humana que sustentava aquele momento coletivo.
Talvez um dos momentos mais intensos da noite, foi presenciado em Dying, o riff cortante, quase hipnótico, conduziu uma explosão sincronizada da plateia. A roda abriu grande, violenta, e no primeiro ataque da banda tudo colapsou numa colisão monumental. O vocal rasgado ecoava como uma sentença definitiva. Quando os acordes finais de Turned Inside Out começaram, já não havia mais energia racional, apenas instinto. O refrão foi berrado com uma força quase desesperada. Era a consciência de que estávamos vivendo algo raro. A roda se tornou a maior da noite.
E assim acabou.
Há algo profundamente simbólico em assistir a um álbum como Cause of Death sendo executado na íntegra em 2026, no Brasil, diante de uma casa lotada numa terça-feira. Não é apenas um show é memória coletiva sendo construída.
Para muitos ali, foi reencontro com a adolescência. Para outros, a primeira oportunidade de presenciar ao vivo uma das bandas que moldaram o gênero. Para todos, foi um lembrete: momentos assim são quase únicos. A Obituary não veio apenas tocar um disco clássico. Veio reafirmar sua relevância. Veio mostrar por que permanece entre os pilares do Death Metal mundial. E nós estávamos lá, sob os Arcos da Lapa, numa terça-feira e com a certeza de que 2026 começou do jeito certo.

















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