Com apresentações de Kobracaio & Os Vida Cobra, Kidsgrace, Degraf e Ratos de Porão, evento marcou o lançamento do selo CerradoCore e reafirmou a força da cena independente brasiliense. 

No último dia 30 de maio, a Infinu, na 506 Sul, recebeu muito mais do que um simples show. A Matinê dos Ratos de Porão reuniu diferentes gerações da música pesada brasileira em uma tarde que marcou o lançamento oficial do selo CerradoCore e fortaleceu a passagem da Kidsgrace por Brasília. 

Com entrada gratuita, casa cheia e um line up que representava diferentes momentos da cena independente do Distrito Federal, o evento se transformou em um retrato da vitalidade que ainda move o underground brasiliense. 

A responsabilidade de abrir os trabalhos ficou por conta do Kobracaio & Os Vida Cobra. Misturando irreverência, crítica social e referências da cultura popular brasileira, a banda rapidamente estabeleceu conexão com o público. Canções como “O Que Te Faz Feliz”, “Bem Normal”, “Pemba” e “Tambores da Liberdade” ajudaram a criar o clima de celebração que acompanharia toda a tarde. Entre refrões cantados em coro e muita energia diante do palco, o grupo mostrou por que se tornou uma presença constante na cena alternativa da capital. 

Na sequência, a Kidsgrace assumiu o palco carregando consigo não apenas a responsabilidade de representar uma nova geração do hardcore do Distrito Federal, mas também o simbolismo de uma banda que vem conquistando espaço através de sua autenticidade e representatividade. 

A abertura com “Ansiedade” e “Observado” definiu imediatamente o tom da apresentação. O peso dos riffs, a intensidade dos vocais e a entrega da banda criaram um ambiente carregado de urgência. Faixas como “Vazio”, “Todo Santo Dia”, “Tudo Está Normal(?)” e “Não Dá Mais” encontraram eco em uma plateia que acompanhava atentamente cada palavra. Já na reta final, músicas como “Bons Costumes”, “A Guerra”, “Mérito” e “Disforia” consolidaram uma apresentação marcada pela força emocional e pela capacidade de transformar inquietações contemporâneas em combustível para o hardcore. 

Mais do que uma banda em turnê, a Kidsgrace mostrou por que vem sendo apontada como um dos nomes mais promissores da cena pesada do Distrito Federal. 

Antes da apresentação dos Ratos de Porão, o renomado músico e produtor Degraf subiu ao palco da Infinu para um dos momentos mais aguardados da tarde. Aproveitando a ocasião, o artista apresentou ao público uma prévia de “VDD”, seu novo álbum, que teve parte do repertório executado pela primeira vez diante da plateia brasiliense. 

A escolha de estrear essas músicas diretamente nos palcos reforça a essência do projeto. Conhecido por sua trajetória consolidada na cena pesada e por sua identidade marcante dentro do metal nacional, Degraf apresenta em “VDD” uma sonoridade mais madura, intensa e visceral. Cada composição parece ter sido construída para o ambiente ao vivo, onde peso, emoção e impacto caminham lado a lado. 

Ao lado de uma banda afiada e entrosada, o músico conduziu uma apresentação marcada por energia, técnica e entrega. Entre músicas já conhecidas pelo público e faixas inéditas, o show serviu como um retrato do momento atual de sua carreira, equilibrando experiência e renovação sem perder a força que sempre caracterizou seu trabalho. 

Mais do que uma simples prévia de álbum, a apresentação funcionou como uma declaração de intenções. Se as músicas executadas na Infinu servem como amostra do que está por vir, “VDD” tem tudo para representar um dos capítulos mais sólidos, pesados e pessoais da trajetória de Degraf. 

Mas quando os Ratos de Porão subiram ao palco, a atmosfera mudou. 

A sensação era de que a temperatura da casa aumentava instantaneamente. 

O público, que já havia acompanhado atentamente todas as apresentações anteriores, transformou cada centímetro da Infinu em uma extensão do palco. Não havia espectadores passivos. Havia uma multidão pronta para cantar, responder e viver cada música como se fosse um manifesto coletivo. 

Desde os primeiros acordes de “Alerta Antifascista”, ficou evidente que os Ratos não estavam ali para uma apresentação protocolar. Não demorou nem uma música para que palco e público se tornassem uma coisa só. 

João Gordo comandava tudo com a naturalidade de quem faz isso há mais de quatro décadas. Entre uma música e outra, disparava críticas ao ex presidente Jair Bolsonaro, arrancando aplausos, gritos e respostas imediatas da plateia. Era simplesmente João Gordo sendo João Gordo. Direto, provocador e sem qualquer interesse em suavizar suas opiniões para agradar quem pensa diferente. 

Se João Gordo era a voz da revolta, Jão reafirmava por que seu nome ocupa um lugar tão importante na história do hardcore brasileiro. Cada riff parecia atravessar a casa inteira, sustentando a violência sonora que transformou músicas como “Crucificados pelo Sistema”, “Conflito” e “Caos” em clássicos eternos do underground nacional. Mais do que técnica, impressionava a naturalidade com que dominava o palco. Seus riffs, ataques e passagens carregavam a autoridade de quem ajudou a construir boa parte da linguagem da música extrema. 

Se Jão construía a muralha sonora da banda, Juninho funcionava como a ponte entre palco e plateia. Dono de uma presença de palco impressionante, passou o show inteiro em movimento, incentivando os coros, encarando a multidão de frente e vivendo cada música com intensidade contagiante. Seu baixo não apenas sustentava a estrutura das composições, ele pulsava junto com elas, com linhas pesadas, execução precisa e uma entrega quase visceral.  

Na bateria, Boka reafirmou por que segue sendo uma referência para gerações de músicos do underground brasileiro. Sua execução foi implacável do início ao fim. Com viradas agressivas, conduções precisas e uma energia aparentemente inesgotável, sustentou a velocidade característica dos Ratos de Porão enquanto impulsionava cada explosão sonora que vinha do palco. Em meio ao caos perfeitamente organizado da apresentação, era ele quem mantinha tudo funcionando com precisão cirúrgica. 

O resultado dessa combinação foi um espetáculo em que palco e plateia pareciam funcionar em perfeita sintonia. Clássicos como “Morte ao Rei”, “Igreja Universal”, “Máquina Militar”, “Crucificados pelo Sistema”, “Aids, Pop, Repressão”, “Caos”, “Conflito”, “Crise”, “Poluição Atmosférica”, “Desemprego em Paz”, “Paranoia” e “Beber Até Morrer” foram recebidos como verdadeiros hinos. 

Em diversos momentos, os gritos vindos da plateia rivalizavam com os vocais do palco. Não importava a idade. Veteranos da cena dividiam espaço com pessoas que estavam assistindo aos Ratos de Porão pela primeira vez. Todos sabiam exatamente o que fazer quando os primeiros acordes começavam. 

Mais do que executar um repertório histórico, os Ratos de Porão demonstraram por que continuam absolutamente relevantes. Suas músicas seguem dialogando com questões sociais, políticas e culturais que permanecem presentes. Quarenta anos depois de sua formação, a banda continua provocando reflexão, incômodo e catarse com a mesma intensidade que marcou seus primeiros passos. 

Ao final da noite, a sensação era clara. A Matinê dos Ratos de Porão não representou apenas mais uma passagem da banda por Brasília, mas o encontro entre diferentes gerações do underground brasileiro em um espaço pequeno demais para conter toda a energia produzida ali. 

Entre novos nomes, artistas consolidados e uma das maiores instituições da música extrema nacional, a Infinu se transformou por algumas horas em um retrato fiel da resistência cultural construída nos palcos independentes. Uma lembrança de que, mesmo longe dos grandes circuitos, o underground segue vivo, pulsante e disposto a ocupar seu espaço.  

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