Há discos que se ouvem, outros, se habitam. Vol. 1, estreia da banda Jovens Ateus, pertence à segunda categoria. Não é um álbum que busca conforto ou transcendência é uma travessia pelo terreno instável da mente, onde a solidão, a autossabotagem e a apatia formam uma topografia emocional de ruína e lucidez. Gostoso de ouvir, sendo um espelho partido no qual o ouvinte reconhece fragmentos de si mesmo, caso haja identificação
Musicalmente, o grupo herda a tradição pós-punk; linhas de baixo densas, guitarras etéreas e uma produção envolta em névoa, que mais sugere do que revela. Esteticamente, está na linhagem de Joy Division, com um sotaque emocional próprio, menos niilista, mais contemplativo. O som é frio e nebuloso, coerente com o que expressa: o peso de existir quando o mundo (e o eu) parece desabar.
As faixas Vultos e Homem em Ruínas, se apresentam como uma cartografia da decadência, não apenas do sujeito, mas também do ambiente que o circunda. O “homem em ruínas” é a metáfora perfeita do projeto de um corpo urbano fragmentado, tentando manter alguma coesão num cenário de colapso emocional e existencial. A solidão aqui não é uma ausência de companhia, mas o espaço entre o que fomos e o que restou. É o que Schopenhauer chamaria de “consciência dolorosa da vontade”, o saber que a dor é inerente ao existir. Em Espelhos e Mágoas, essa percepção se torna íntima, a dor se volta para dentro, transformando-se em autocrítica, em autossabotagem, numa luta silenciosa entre quem se é e quem se gostaria de ser.

O curioso é que, mesmo imerso nesse breu, o disco não soa desesperado. Sua força está no controle na maneira como os Jovens Ateus moldam o caos interior com precisão estética, como quem segura a respiração para não tremer diante do abismo. É fácil rotular Vol. 1 de “depressivo”. Seria também superficial. O álbum tem uma estética depressiva, sim, lenta, introspectiva, fria, mas conceitualmente é alienado. Ele não fala apenas de tristeza, fala de desligamento, de perda de sentido, de vazio existencial.
Em vez de dramatizar o sofrimento, o álbum o estrutura, o organiza sonoramente. O resultado é uma obra de beleza minimalista e coerência emocional. Cada faixa é um gesto de contenção a dor não explode, ela reverbera. O eu lírico observa seu próprio colapso com uma espécie de serenidade lúcida o que me lembra Nietzsche… “afirmar a vida mesmo em sua tragédia”. Essa é a beleza que ao meu ver Vol. 1 revela, a beleza do que não precisa ser curado para ser verdadeiro. A dor não é um problema a ser resolvido, mas um material a ser moldado.
“A beleza do álbum não está em superar a dor, mas em moldá-la.
É o gesto de olhar a própria alienação e dizer: ‘eu existo, mesmo que quebrado.’”
O percurso das faixas segue uma linha descendente, quase como um estudo sobre a gravidade emocional: Correntes, Saboteur Got Me Bloody e Passos Lentos mergulham na apatia e na autodestruição com honestidade desarmante. Eu sinto que tem Poe nessa descida é a contemplação estética do abismo.
Em Introspectro e Flores Mortas, surge a lucidez proustiana (clássico em post-punk) o reconhecimento de que o tempo, ao mesmo tempo que destrói, dá forma à memória. São canções que encaram o passado como um jardim abandonado as flores mortas ainda exalam o perfume do que já foi. O encerramento com Cedo Demais e o alívio instrumental de Twinturbo Mixtape não oferecem redenção, apenas entendimento: a queda é o estado natural. E dentro dela há uma forma estranha de paz a beleza melancólica que se manifesta quando a máscara da esperança cai e o que resta é a simples constatação de estar vivo, ainda que esvaziado.
Em Vol. 1, os Jovens Ateus se filiam a uma linhagem estética em que a alienação é motor criativo. Assim como bandas que definiram o pós-punk, o álbum demonstra que a banda entende que a melancolia pode ser bela, que o desamparo pode ser forma, que o colapso pode ser linguagem. Há, portanto, em Vol. 1, uma espécie de redenção silenciosa: não a redenção pela esperança, mas pela arte.
O disco é um corpo fragmentado que encontra harmonia em sua própria desordem um monumento erguido sobre as ruínas do eu. Em tempos de excesso e euforia digital, os Jovens Ateus oferecem silêncio, sombra e sinceridade. A beleza de Vol. 1 está em admitir o desamparo e fazer dele um lugar habitável









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